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Julgar os outros

Martha Medeiros

Já achei textos consagrados uma chatice e já vi graça e novidade em textos considerados descartáveis. Não sou confiável nem para julgar a mim mesma.

Sempre leio com prazer as crônicas da Maria Tomaselli Cirne Lima, mas a que saiu segunda-feira passada me chamou especial atenção porque ela aborda um assunto que me fascina. Maria recentemente participou do júri do Salão Jovem Artista e comentou, na crônica, a dificuldade de se julgar obras de pessoas que estão começando. Disse ela que passou uma noite mal-dormida depois de selecionar alguns trabalhos e descartar outros tantos. Entendo-a perfeitamente.

Recebo dezenas de textos por semana para avaliar. Meus colegas devem receber a mesma quantidade. Não sei o que eles pensam a respeito, mas eu acho a tarefa um suplício. Não só pela falta de tempo, mas pelo constrangimento que causa a mim e ao candidato a escritor. Enviar um texto para avaliação exige certo desprendimento, a pessoa fica ali, despida, sujeita a um “gostei” ou “não gostei”. Geralmente, não gosto. E daí? Isso não muda nada. Posso ter me equivocado. Quem pede avaliação costuma ter pouca experiência, é comum errar. Não tenho bola de cristal, o jovem autor talvez venha a ser, no futuro, um Machado de Assis. Ok, Machado já devia escrever direitinho aos cinco anos de idade, mas você entendeu. Não me considero habilitada para dar veredictos literários. Já achei textos consagrados uma chatice e já vi graça e novidade em textos considerados descartáveis. Não sou confiável para julgar nem a mim mesma.

Até nas vezes em que eu sabia estar certa, fracassei. Quando integrei o júri do Festival de Cinema de Gramado, em 2001, fui voto vencido no prêmio para melhor fotografia. Um dos integrantes do júri julgou “inovadora” a luz de um filme que ninguém nunca mais ouviu falar (Urbania) e convenceu todo mundo a não dar o prêmio a Roberto Henkin, diretor de fotografia de Netto Perde sua Alma, disparado o melhor na categoria. Eu lutei o que pude pelo Henkin, até que alguém insinuou que eu estava sendo tendenciosa por ser a única gaúcha no júri. Tendenciosa coisa nenhuma. Foi injustiça mesmo.

Injustiça é algo que me desestabiliza, que altera meu humor. E é o que ocorre em qualquer julgamento. Faz parte do processo. As maiores top models do mundo nunca ganharam o primeiro lugar em concursos de beleza. Em 1962, um executivo de uma gravadora dispensou os Beatles porque, segundo ele, conjunto de guitarristas não tinha futuro. Em 1864, Manet disse que Renoir, então com 23 anos de idade, não tinha o menor talento para a pintura. Em 1928, um executivo da Metro analisou da seguinte maneira um teste de Fred Astaire: “Não sabe representar, nem cantar, e é careca. Dança um pouco”. O ator George Raft (George quem?) recusou-se a ser protagonista de Casablanca porque não queria contracenar com uma sueca desconhecida.

Todo mundo já deu suas bolas fora. Competência para julgar, só quem tem é o tempo.


Domingo, 18 de julho de 2004.



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